Wednesday, September 3, 2008

Monstros, de José Gil


"[...] o corpo do outro reflete a imagem do meu como num espelho. Mais: no seio da minha imagem de mim habita a imagem de mim vista pelo outro corpo, de outro ponto de vista (exterior: assim toda a visão - de toda a paisagem e de todos os corpos - implica o espelhamento da minha imagem numa coisa outra; e o espelhamento da sua imagem no meu corpo).
Aqui reside a figura do "duplo". O corpo normal é-o porque não está sozinho: com ele vive o seu duplo - como um corpo duplo subtil, um "simulacro" [...]. O meu duplo assegura-me a constância e a multiperspectivação da percepção; com ela construo a reversibilidade do meu tempo irreversível, e vivo um presente com extensão que, enquanto dura, dura para a eternidade. Por isso a morte, que me é tão intíma, está sempre tão longe como alheia à vida. Duplo latente que sou - dentro e fora de mim."

Monday, July 14, 2008

Stabat Mater de Tarantino, pelos Artistas Unidos

1h30 de monólogo... De assustar qualquer um? Talvez sim, não fosse uma imagem de cartaz brilhante e profundamente dramática em 2006 quando estrearam, e agora o reconhecimento já consensual de um trabalho brilhante de Maria João Luís, e sem dúvida de um grande trabalho de equipa por trás...

Um monólogo dialogado, da personagem consigo mesma... com os seus dramas, a sua história, a sua pessoa.
O barafustar de sargeta, de uma mulher gasta, que não deve nada à vida e à sorte, vivida no meio de pessoas pequenas e relações pequenas, inconsciente, cheia de experiência e experiências, e ao mesmo tempo profundamente inocente... Capaz de afirmações tão polémicas como a da masculinidade do padre da paróquia, por baixo da sua batina, por ter adivinhado o volume hirto em determinadas ocasiões "que ele sempre é homem como os outros, porra... ai não se ele não é homem... bem vejo que ele é homem"... A expressão de gratidão por um "deixava que me desse uma voltinha nas mamas"... A afirmação de um racismo cru, relativamente aos marroquinos "punheteiros" "à espera de dar uma voltinha em qualquer um"...
Uma mulher de sargeta, a ansiar um reconhecimento que não vem, numa auto-afirmação que passa por "não ter" uma tabuleta a anunciar "vinhos e petiscos"... Uma mulher que na experiência limite de poder perder o seu filho, criado em esforços de mãe solteira, devido a um envolvimento político que desconhece e é incapaz de perceber, grita por fim a sua raiva.
Filho não reconhecido pelo João "sem borrachinha", casado com o "pote de banha a cheirar a xulé" a quem se sente ligado por tê-la "furado" primeiro... O tal João que aparecia às 10h e às 10h não veio... O João que lhe ia comprar a mercadoria... dar-lhe uma voltinha nas mamas... e levá-la a falar com o juíz responsável pelo caso do filho... e que às 10h marcadas no ómega que nunca se engana, não veio.
E nesse momento limite, não pode estar o padre, nem a sra x ou a sra y, sempre tão cheios de bons conselhos, mas incapacitados de se desviarem dos seus afazeres de paroquianos para auxiliar dores de mãe... Afazeres não interrompidos talvez por ser este um caso entre mil... (e perante a impotência...preferir não ver nos olhos a dor de cada um, votando-a à realidade numérica das coisas que acontecem, relatos de bairro ou de revista)... afazeres não questionados pela mãe agradecida das ajudas prestadas.
Não pode estar a Madalena, a mulher da casa do povo, mulher de rua, que vai com todos e diz amar o filho preso... "ai que ele diz umas coisas"
Não pode estar o juíz... mais uma vez...
Mulher de sargeta, mãe ferida, que entre tragos de álcool e frases repetidas, grita por fim a dor nessa experiência limite.

Sunday, July 13, 2008

Antídoto, José Luís Peixoto

« O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar [...] O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim.

[...]

Sei que existem cemitérios. Sei que a casa onde estás, o lugar onde te imagino a fazer tantas coisas, a não te lembrares de mim, é um lugar de destroços. Vivemos rodeados de cemitérios. Aquilo que fomos está enterrado à nossa volta e nunca poderemos saber onde deixámos tudo aquilo que não voltaremos a ver.»

Saturday, June 21, 2008

Ananil


O Ananil é um festival gratuito (!!!) em terras de Montemor, mesmo à beira rio... em contacto profundo com a natureza, numa atmosfera relaxante... onde tudo acontece devagarinho, com muito espírito inventivo e artesanal... e onde podemos assistir às experiências cinematográficas, musicais e performativas de jovens artistas, à descoberta da sua linguagem...

Através da apresentação dos seus trabalhos, os artistas constroem uma relação de conversação com o espectador... que torna a arte próxima! O Ananil é um corte com o sistema pseudo-intelectual de apresentação de espectáculos em espaços fechados, restritos pelo preço de um bilhete ou até simplesmente pela estratificação social com os seus hábitos e sub-culturas próprios, que tornam certos espaços como a Culturgest, o CCB, o Camões, a Cinemateca, etc etc, espaços visíveis apenas a alguns... e como que grandes incógnitas, para outros. Há que perceber que enquanto fecharmos a arte nos seus espaços, estamos a vedar o acesso, a toda uma massa de população cuja sub-cultura própria não inclui o conhecimento, a frequência, o questionamento, sobre o que se passa por detrás dessas paredes com letreiros estranhos à entrada. É urgente levar a cultura às ruas!!! E o Ananil é um perfeito exemplo disso.
Sinto-me aqui tentada a citar as palavras de um amigo, pouco frequentador desses espaços, e supostamente não apreciador de dança, depois da performance f/f do dançarino e coreógrafo Hajime Fujita:

"Isto interessa-me mais, liguei-me mais a ele, eu senti mais, percebi mais do que se ele tivesse um fato xpto e estivesse num palco."

O Ananil constroi-se numa sala minúscula onde as pessoas se sentam muito juntas no chão, mesmo ao lado da actuação; debaixo de uma árvore mesmo junto às mesas dispostas no pátio para as refeições e na zona de passagem; debaixo de outra árvore que faz de sombra à tela, numa espécie de pequeno pátio, mesmo ao lado da estrada; numa tenda ao fundo do campo, com um pequeno palco; nas pedras ou nos bancos (tábuas assentes na terra) junto ao rio; no pequeno bar de gente da aldeia; nas tendas dispostas no terreno irregular, rompido por raízes ou por pedras, debaixo das árvores junto ao rio; nas ruínas do fantástico castelo de Montemor; no pôr do sol incrível: no céu estrelado.

Espero voltar!

Thursday, May 22, 2008

Acamarrados_ de Enda Walsh

ACAMARRADOS de Enda Walsh
Tradução Joana Frazão
Com
Carla Galvão e António Simão
Cenografia e Figurinos
Rita Lopes Alves
Luz
Pedro Domingos
Direcção de Produção António Simão
Assistência Pedro Carraca


Destinos cruzados, no drama individual de cada um e nos eternos opostos entre dois seres que se encontram, ou são forçados a encontrar, em relação.

A relação, neste caso é de filiação.

O drama ou os dramas? Escorrem lentamente pelo discurso... a história que se vai dizendo.

Um pai que se queria mais... uma filha que se queria mais. Dois seres presos a uma cama... um porque descobre ter receio de viver... descobre recear o mundo exterior. O outro porque a doença física a isso obrigou, apesar da luta exasperada para sentir, para viver...

O pai... descendência humilde, lutou astuciosamente por uma melhor posição social, vendendo a sua busca individual de felicidade em troca de relações motivadas pelo interesse, pela vingança, pela necessidade de sucesso, a necessidade de se afirmar como superior. Um homem enclausurado na sua torre, mecaniza a sua existência na terra... confraterniza, para obter melhor posição, para cativar os clientes de uma loja de móveis para assim ter mais vendas. Casa para ter uma parceira nos seus jogos de confraternização - alguém que recebe os seus clientes, que cozinha... Tem sexo por interesse, para cativar um vendedor a vender-lhe mercadoria e para procriar e assim fazer frente a um negócio familiar nascente, no mesmo ramo.

A filha, uma mulher que num trágico acidente em criança, apanhou uma doença que lhe deforma o corpo e que passou 10 anos da sua vida, tendo como único estímulo a presença incansável de uma mãe que lê histórias, que sorri... e a vaga noção da presença de um pai, de quem a mãe fala e a quem ouve por vezes... O pânico das paredes que ficam mais próximas, cada dia mais próximas e um barulho constante de martelar. Descobre depois que o martelar e o aproximar das paredes foi obra do pai, que durante 10 anos, num acto de loucura, foi construindo paredes, até que por fim a casa se transforma num labirinto, em torno de uma cama apertada entre 4 paredes.

A história revisitada, torna-se história presente. Palavras que enchem o espaço vazio deixado pelo silêncio. Vazio que o homem procura, e que ela recusa...

O espaço vazio e oco da ausência das palavras... em que nada é...

O homem que quer cessar de existir... a mulher que quer (re)começar...

Acamarrados... amarrados a essa cama entre 4 paredes apertadas - o cenário da peça, que se mostra e esconde numa parede branca, que desce no início da peça, e sobe no fim... declarando esse retormo à cama e às paredes que nos prendem a todos...

Friday, May 16, 2008

Porquê arte? Porquê esse gesto tão improvável de criar? E o que é criar? Sair da esfera desta vivência do quotidiano mundano? Mas criamos então em cada instante... Porquê arte? Porquê esse gesto tão improvável? Porquê o som? Porquê a pintura, a escultura, as instalações e todo o género de artes plásticas? Porquê o teatro? Porquê a mistura de todas?

Esta insatisfação... esta busca... verborreia constante! Tantos nomes, tantas obras... tanta vida, conceitos, ideias, emoções...

Cada género único... resultado forte dessa vivência profunda de cada homem consigo mesmo, com a sua cultura, com o seu meio...

Obrigado por esse gesto tão improvável!

Wednesday, January 23, 2008

"While going to a condition" e "Finore" de Hiroaki Umeda


Dois espectáculos... um mesmo estilo, que impressiona pela originalidade da criação final... Um vocabulário herdado do breakdance numa versão minimalista, em que a coreografia de luzes desempenha um papel fundamental... Uma dança interna... o ritmo sente-se totalmente de dentro para fora... só impregnados nesse ritmo interno é possível perceber com os sentidos, os movimentos contidos, concentrados e de uma espantosa precisão, de Hiroaki. A dança concretiza-se com a absoluta fusão do corpo no ritmo da música... como se cada som vibra-se inteiro em cada músculo, provocando cada pequeno movimento de que é composta a dança - ambas são compostas apenas de pequenos movimentos... um artista que num palco gigante ocupa dele uma milésima parte, numa versão quase estática... os movimentos são sobretudo internos...


Na conversa final com o artista, que é bom hábito da Culturgest proporcionar, surge uma informação que sinto anda preciosa quando penso no(s) espectáculo(s)... Hiroaki é japonês... e o espaço que usa para ensaiar é o seu quarto... um espaço de escassos metros quadrados, dada a falta de espaço da cidade que habita. Os movimentos internos de Hiroaki tomam para mim outra proporção... O palco gigante ocupado por luzes, e no seu centro um dançarino que não saindo quase do seu lugar consegue dar vida ao ritmo acelarado da música... torna-se de repente mais do que um espectáculo de dança... mas uma afirmação da capacidade de sentir do ser humano sobre todas as limitações externas que se lhe possam impor. Hiroaki torna-se para mim o homem que viola o espaço... e os movimentos densos, fortes, precisos e de total domínio sobre os diferentes músculos do corpo, com que me havia impressionado tornam-se a prova viva de que não há limitação externa que se possa impor a essa intenção interna de sentir... e de sentindo criar. Obrigado Hiroaki...